sexta-feira, março 18, 2005

Ouvir vozes...

Ela voltou-se para mim, o suor a escorrer-lhe pelo rosto, os olhos desconsolados e sofridos.
- Não, Tom, não posso confiar na tua voz.
- Mas porquê? – porguntei.
- Porque eles usam todas as vozes... Lembraste de quando me cortei pela primeira vez?
- Claro.
- Eles usaram essas vozes dessa vez. Os cães pretos encheram o quarto. Eram incandescentes na escuridão. Morderam o meu rosto com os seus dentes horríveis... Todos, menos um... Um cão de focinho meigo... O bom cão... Falou comigo, mas não com a voz dele...
- Voz de quem Savannah? não estou a perceber nada...
- O cão bom disse: “Nós queremos que te mates Savannah, para bem da tua família, porque tu nos amas.” Eu ouvi isto com a voz da nossa mãe.
- Mas não era a mamã.
- Eu gritei: “Não!” Sabia que era um truque. Depois ouvia o pai que me dizia para eu me matar. A voz era doce e sedutora. Mas não foi o pior. O tal cão aproximou-se do meu ouvido e do meu pescoço e falou com a voz mais meiga de todas. “Mata-te. Por favor, mata-te. Agarra na lâmina de barbear e mata-te.” Foi quando cortei os pulsos pela primeira vez, Tom. Nessa altura ninguém sabia das vozes... Não tinha coragem de contar a alguém que ouvia coisas...
- Mas desta vez não vai acontecer, Savannah. Não vais ouvi-los desta vez, pois não?
- Não. Mas preciso de estar sozinha para lutar contra eles... Vão ficar durante muito tempo, mas agora sei como lutar... Juro... Vai dormir...
Beijei-a e apertei-a contra o peito. Enxuguei o o suor do rosto dela com as minhas mãos e beijei-a de novo.
Ao sair, voltei-me e vi-a encostada ao travesseiro, enfrentando a população do seu quarto.
- Savannah. Essa voz. A última voz que disse para te matares. De quem era essa voz? Não me disseste.
Ela olhou para mim, o seu irmão, o seu irmão gémeo.
- Foi a voz mais gentil, mais terrível de todas, Tom. Foi a tua voz que eles usaram, a voz que eu mais amo no Mundo.